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Internacional Festival

Cannes 2024: Confira os destaques do festival

77ª edição enalteceu obras estrangeiras e acenou novas ideias do cinema estadunidense

27/05/2024 10h48 Atualizada há 4 semanas
Por: Gabriel Araújo
Imagem oficial do 77º Festival de Cannes. Foto: Reprodução
Imagem oficial do 77º Festival de Cannes. Foto: Reprodução

Entre os dias 14 e 25 de maio, ocorreu a 77ª edição do Festival Anual de Cinema de Cannes, um dos mais importantes do ramo no mundo, O júri desse ano foi presidido pela diretora de Barbie, Greta Gerwig, que também teve Eva Green (Os Sonhadores) e Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores) integrando o corpo votante. Confira os filmes que mais se destacaram neste ano.

Megalopolis

Adam Driver e Nathalie Emmanuel em cena do filme ''Megalopolis''. Foto: Reprodução
Adam Driver e Nathalie Emmanuel em cena do filme ''Megalopolis''. Foto: Reprodução

O ambicioso projeto de décadas de Francis Ford Coppola (Poderoso Chefão) finalmente viu a luz do dia. O filme, cujo financiamento veio do próprio bolso do diretor, conta com um elenco repleto de estrelas como Adam Driver (Star Wars), Nathalie Emmanuel (Game of Thrones), Aubrey Plaza (The White Lotus) e mais, e foi descrito pela crítica especializada como ‘’o sonho louco e efervescente de Coppola’’, com direito a um momento inusitado na exibição de estreia. Na ocasião, as luzes da sala se acenderam, um homem surgiu com um microfone, e fez uma pergunta para o personagem de Adam Driver no filme. Ainda não há previsão de estreia.

Tipos de Gentileza

Emma Stone em cena do filme ''Tipos de Gentileza''. Foto: Reprodução/Searchlight Pictures

Depois de causar polêmica com seu longa vencedor do oscar Pobres Criaturas, Yorgos Lanthimos (A Favorita) não demorou muito para aparecer com um novo projeto. Trazendo o retorno de pessoas que já trabalharam com o cineasta grego, como Emma Stone (La La Land), Willem Dafoe (O Farol) e Margaret Qualley (Era Uma Vez em... Hollywood), o filme foi descrito como uma antologia, ou seja, são várias histórias contadas no mesmo longa, mas diferente de seu antecessor, este parece ter dividido mais a audiência. Lanthimos aproveitou a participação no festival para anunciar sua nova produção, intitulada de Bugonia, contando com distribuição da Universal Pictures e as presenças de Emma Stone e Jesse Plemons (Breaking Bad) no elenco. Tipos de Gentileza tem estreia prevista para o dia 21 de junho.

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Furiosa: Uma Saga Mad Max

Anya Taylor-Joy em cena do filme ''Furiosa: Uma Saga Mad Max''. Foto: Reprodução/Warner Bros Pictures

Poucos antes de lançar em circuito comercial, o novo filme da franquia de George Miller (Happy Feet) estreou em Cannes. Vale lembrar que ano passado ocorreu uma exibição exclusiva na CCXP em São Paulo, que contou com a presença do diretor e elenco. O filme recebeu seis minutos de aplausos. Furiosa está em cartaz nos cinemas neste momento.

The Apprentice

Jeremy Strong e Sebastian Stan em cena do filme ''The Apprentice''. Foto: Reprodução

O diretor Ali Abbasi, depois de chocar Cannes com seu Holy Spider (2022), agora retorna com uma cinebiografia sobre Donald Trump. Tendo Sebastian Stan (Vingadores: Ultimato) no papel principal, o longa faz um recorte da vida do empresário e ex-presidente dos EUA entre as décadas de 70 e 80, com o título fazendo referência ao programa de televisão ‘’O Aprendiz’’, que teve versão brasileira e que ajudou a alavancar Trump para o status de celebridade. Em um ano em que a eleição presidencial na terra do Tio Sam promete ser fervorosa, resta saber como o público irá receber este filme. Ainda não há previsão de estreia, e Trump está tentando fazer de tudo para que o longa não seja lançado.

The Shrouds

Vincent Cassel e Diane Kruger em cena do filme ''The Shrouds''. Foto: Reprodução

O diretor David Cronenberg, conhecido por excêntricos filmes como A Mosca (1986) e Crash – Estranhos Prazeres (1996), trouxe para Cannes um projeto com caráter autobiográfico, inspirado no falecimento de sua esposa, Carolyn, em 2017. O longa fala de um inventor que cria um dispositivo capaz de observar os entes queridos em decomposição no cemitério. The Shrouds tem previsão de estreia para o dia 25 de setembro deste ano na França.

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The Substance

Cena do filme ''The Substance''. Foto: Reprodução

 

Outro filme que também deu o que falar em Cannes foi o thriller The Substance, da diretora Coralie Fargeat, que traz no elenco a estrela dos anos 90, Demi Moore, fazendo sua estreia no festival. Bastante elogiado, o longa trata de temas como etarismo. Ainda não há previsão de estreia.

Motel Destino, Baby e mais

Cena do filme ''Motel Destino''. Foto: Reprodução

O Brasil marcou presença na edição desse ano com cinco filmes. O que mais teve destaque foi Motel Destino, do cearense Karim Aïnouz, que esteve presente também ano passado, mas com Firebrand, uma produção internacional. No tapete vermelho, ocorreu um momento marcante, onde o festival tocou a música ‘’Coração’’ da banda Aviões do Forró, embalando o diretor e elenco. ‘’Motel Destino’’ foi considerado por muitos como ‘’o filme mais sexy de Cannes’’. O filme deve estrear no Brasil no segundo semestre desse ano.

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Cena do filme ''Baby''. Foto: Reprodução

Baby, segundo longa do diretor Marcelo Caetano, também foi exibido, contando uma história de amor LGBTQIA+ em São Paulo. Ainda não há previsão de estreia

Cena do documentário ''A Queda do Céu''. Foto: Reprodução

Além disso, o documentário A Queda do Céu, de Gabriela Carneiro da Cunha e Eryk Rocha, também marcou presença, retratando a relação dos indígenas com a natureza, além de abordar a questão do desmatamento. Ainda não há previsão de estreia.

Cena do curta animado ''A Menina e o Pote''. Foto: Reprodução

Dois curtas brasileiros tiveram estreia em Cannes. O primeiro, A Menina e o Pote, é uma animação comandada por Valentina Homem, se passando em um mundo distópico, debatendo questões como o fim do mundo.

Cena do curta-metragem ''Amarelo''. Foto: Reprodução

Amarela, de André Hayato Saito, mostra um episódio traumático de uma garota nipo-brasileira durante a final da Copa do Mundo de 1998.

Palma de Ouro Honorária

Meryl Streep recebe a Palma de Ouro Honorária no Festival de Cannes. Foto: Getty images

Dois atores e uma produtora receberam a Palma de Ouro honorária na edição deste ano. Meryl Streep (O Diabo Veste Prada) recebeu, pelas mãos de Juliette Binoche (O Paciente Inglês), o prêmio por suas contribuições para o cinema. Em seu discurso, Meryl refletiu a respeito de envelhecer na indústria cinematográfica.

George Lucas recebe a Palma de Ouro Honorária no Festival de Cannes. Foto: Mustafa Yalcin/Anadolu via Getty Images

Quem também recebeu foi George Lucas, pelas mãos de Francis Ford Coppola, amigo de longa data. O criador da saga Star Wars fez questão de enfatizar em seu discurso, que o uso de inteligência artificial na produção cinematográfica é inevitável, portanto, sendo necessário pensar sobre a regularização da IA.

Goro Miyazaki recebe a Palma de Ouro Honorária no Festival de Cannes, representando o Studio Ghibli. Foto: Reprodução/AFP

Os japoneses do Studio Ghibli, conhecidos por animações como Meu Amigo Totoro (1988) e A Viagem de Chihiro (2001), receberam o prêmio, com Goro Miyazaki, filho do diretor Hayao Miyazaki, os representando.

Palma de Ouro

Mikey Madison em cena do filme ''Anora'', vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes. Foto: Reprodução

No fim de semana de encerramento, ocorreu a cerimônia da Palma de Ouro, onde são premiados os filmes que concorrem em Cannes. Quem se consagrou campeão foi Anora, do diretor estadunidense Sean Baker, filme que fala sobre o romance de uma stripper com um oligarca russo.

Selena Gomez em cena do filme ''Emilia Perez'', vencedor do prêmio de Atriz no Festival de Cannes. Foto: Reprodução

Uma surpresa foi que Emilia Perez recebeu o prêmio de Atriz para seu elenco como um todo, sendo as atrizes Adriana Paz, Zoe Saldaña, Karla Sofía Gascón e Selena Gomez. Confira outros vencedores:

Grand Prix: All We Imagine As Light (Payal Kapadia)

Prix du Jury (Prêmio do Júri): Emilia Pérez (Jacques Audiard)

Prix de la Mise en scène (Melhor Diretor): Grand Tour (Miguel Gomes)

Prix Spécial (Prêmio Especial de Roteiro): The Seed Of The Sacred Fig (Mohammad Rasoulof)

Prêmio de interpretação masculina: Jesse Plemons (Kinds of Kindness)

Prêmio de interpretação feminina: Adriana Paz, Zoe Saldaña, Karla Sofía Gascón, Selena Gomez (Emilia Pérez)

Prix du Scénario (Roteiro): The Substance (Coralie Fargeat)

Caméra d’or (Melhor Diretor Estreante): Armand (Halfdan Ullmann Tøndel)

Caméra d’or - Menção Especial: Mongrel (Wei Liang Chiang e You Qiao Yin)

Palma de Ouro de Curta-metragem: The Man Who Could Not Remain Silent (Nebojša Slijepčević)

Menção Especial de Curta-metragem: Bad For a Moment (Daniel Soares)

Conversei com Fabiana Lima, do site Cinemafilia, que esteve presente na edição deste ano do festival. A crítica maranhense destacou as produções que mais chamaram sua atenção:

‘’Megalopolis, além de muito potente politicamente, também é um filme que formalmente, a própria ideia de cinema, a construção do filme, foi algo que eu tinha visto poucas vezes. É um filme bem caótico na sua construção. Até mesmo no filme do Cronenberg [The Shrouds] que não foi tão bem recebido, ou até mesmo o do Paul Schrader [Oh Canada], por exemplo, foram filmes que eu consegui ver uma virtude, em termos de pensar uma ideia de cinema que pra mim foi curiosa.

The Seed of the Sacred Fig, foi um filme iraniano, cujo diretor fugiu do Irã para lançar esse filme em Cannes, então ele já tinha esse impacto prévio, da história que aconteceu até o lançamento dele. É um filme que eu fiquei positivamente surpresa com a forma como ele aborda a revolução que as mulheres tem feito a respeito da violência contra a mulher lá no Irã, e é muito forte nessa carga dele. É basicamente um ato político em si, mas a forma que ele decide contar essa história também é muito interessante. É um filme que eu espero que tenha um destaque maior daqui pra frente, mesmo ganhando esse prêmio especial que foi criado pra ele, o que eu não achei justo, porque poderia ter sido encaixado entre os prêmios regulares.

A gente teve o Grand Prix também, que é um filme belíssimo, o All We Imagine as Light, da diretora indiana Payal Kapadia. Muito feminista, anticapitalista, e muito poético, de uma diretora que tem esses temas com ela desde sempre. É uma diretora muito política, que fez um discurso muito político a favor da greve que tava acontecendo lá em Cannes entre os funcionários, então é outro filme que eu gostei bastante. Outro filme, que ganhou o prêmio de Melhor Roteiro, e que também tava na minha lista da Palma de Ouro foi The Substance. É um body horror, então é um filme de gênero, que talvez não agrade todo mundo, mas que fala sobre o etarismo em Hollywood, e traz de referência uma grande quantidade de filmes que gosto muito, como Carrie A Estranha, algumas coisas de contos de fadas, Crepúsculo dos Deuses.

Teve também o Motel Destino, que eu achei muito bom. Tenho alguns problemas com a terceira parte, eu acho que muita gente teve, porque ele faz um anticlímax, mas é um filme que acho que quando estrear no Brasil, vai ser muito bom. As pessoas vão receber bem. É o filme mais livre do Karim, senão o mais sexy da competição, eu acho.’’

Sobre a Palma de Ouro, Fabiana disse:

‘’A Palma de Ouro também é um filme com mensagem feminista e também anticapitalista de certo modo, porque faz piada com um herdeiro russo, e é sobre uma garota de programa nos Estados Unidos, então ele já tem essa carga política junto com ele, mas consegue trazer mais ainda pra forma que o filme é feito, que é uma comédia romântica às avessas. Além de muito divertido, é muito consciente politicamente do seu lugar, assim como o cinema do diretor, que sempre deu voz para as pessoas marginalizadas, especialmente pela ideia do sonho americano, que ele tenta desconstruir tento da filmografia dele. Ele tem domínio total sobre a linguagem do filme, então foi uma ótima escolha de Palma de Ouro, na minha opinião. Eu daria o prêmio para esses outros filmes, não porque o Anora seja menor, mas sinto que o impacto dos outros é maior, mas eu entendo a escolha de ser ele, acho também um filme excelente. Pensando no júri presidido pela Greta Gerwig, que compartilha o passado do cinema norte-americano independente, que tem essa veia cômica na filmografia dela, faria sentido ela premiar um colega norte-americano. Foi a sessão mais divertida que fui em Cannes, e a mais eufórica também.‘’

Sobre a seleção de filmes desse ano, Fabiana pontuou:

‘’Eu gostei da seleção desse ano. Eu acho que foram filmes, em sua maioria, que eu vi algo de interessante, sabe? Pelo menos não só tematicamente, porque foram filmes muito políticos, em sua maioria.

Eu vi muito tema voltado, para além da ideia de pensar o cinema, mas pensar a sociedade e ter filmes anticapitalistas ou antissistemicos, de ir contra o que a gente tá vendo no status quo mundial. Tiveram muitos filmes feministas, e isso foi algo que diferente do ano passado, me atraiu na seleção desse ano

No geral achei um ótimo festival, americanizado na maioria das suas escolhas e homenagens, mas bom. Eu tive um contato e uma vivência mais interessante do que do ano passado, embora eu ainda seja uma grande fã de Anatomia de uma Queda.’’

Lembrando que é em Cannes onde distribuidoras negociam o lançamento dos longas em circuito comercial, portanto, nos dá um vislumbre dos filmes que veremos ao longo do ano, e nas futuras temporadas de premiações.

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